Copa de 1982

Copa de 1982
Lembranças da Copa do Mundo de 1982: veja o artigo que escrevi sobre o melhor mundial de todos os tempos

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Exclusivo! Reportagem e Entrevista com Raimundo Fagner

Reportagem e entrevista exclusiva com Raimundo Fagner

“Minha vida sempre foi muito mais ligada ao futebol do que o ambiente musical”
Botões para Sempre teve a honra de conversar com o cantor, compositor, instrumentista e produtor brasileiro, um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira: Raimundo Fagner Cândido Lopes. Mais jovem dos cinco filhos de José Fares, imigrante libanês, e Dona Francisca, Fagner nasceu na bela capital cearense, Fortaleza, em 13 de outubro de 1949, embora tenha sido registrado no município de Orós, famoso pelo açude de mesmo nome, localizado no Centro-Sul do Ceará. Na música, o cearense ‘universal’ entrou direto pela porta da frente. Seu nome foi pronunciado vastamente, pela primeira vez, em 1972, quando Elis Regina gravou “Mucuripe” (parceria com Belchior). Nesta entrevista especial, o cantor fala sobre sua paixão pelo futebol e suas amizades estreitas com ex-jogadores, verdadeiros ídolos do gramado. O Mestre exclusivamente nos brindou com saudades o romantismo que o futebol de botão proporcionou em sua infância e vida adulta. E ainda opinou sobre a Copa de 2018 que vem por aí.

Por Ricardo Bucci com a colaboração de José Oliveira

Corria o dia 10 de abril de 2018. O relógio toca: 16:06. Botões para Sempre pergunta: “Fagner, tudo bom, podemos conversar”? Ele responde: “Sim, só deixa acabar a partida do Barcelona”. Ali verificamos realmente o fanatismo de Fagner pelo futebol. Voltamos somente às 18:01, após o jogo: “Uma partida histórica essa entre Roma e Barça pela Liga dos Campeões da Europa”. O cantor se entusiasma e exclama: “Demais! Foi bom, pois quebra um pouco esta hegemonia e acorda o Messi para a Copa”, disse.
Fagner é, seguramente, o músico que manteve amizade com o maior número de grandes craques brasileiros. Tudo começou no início da década de 1970, quando deixou Fortaleza rumo ao Rio de Janeiro.
 “O Zico é meu ‘compadre’, uma amizade eterna. Vamos comemorar, em breve, 45 anos de amizade"

Mas vamos lembrar um pouco de sua extensa trajetória musical. Em entrevista ao programa ‘Ensaio’, da TV Cultura, do começo dos anos 90, que Botões para Sempre guarda originalmente em seu acervo, Fagner recorda que escutava os acordes libaneses de seu falecido pai. Assim o gosto pela música não tardou a chegar. Aos seis anos ganhou um concurso infantil numa rádio local em Fortaleza, cantando uma música ('Mãezinha Querida') em homenagem ao Dia das Mães. Na oportunidade ganhou um prêmio de mil réis e um sabão da marca local “Pavão”.
O cantor relembra que muitos amigos e parentes se reuniam para fazer um 'sarau' (reunião festiva) em família. Eles cantavam canções acompanhadas de um tio dele muito famoso, que também se chamava Raimundo, e que era um exímio sanfoneiro, disse Fagner para nossa entrevista.
Na adolescência Fagner comentou exclusivamente a Botões para Sempre que procurava os programas de calouros, especialmente nas rádios 'Ceará Rádio Clube' e 'Rádio Iracema', ambas em Fortaleza, que tinham auditórios e foi numa dessas apresentações que ele viu Cauby Peixoto no palco. "Foi um desbunde", lembra. Nessa época o seu irmão saudoso Fares Lopes já tinha uma história musical no Ceará, atuando ao lado de nomes como o do 'hitmaker' Evaldo Gouveia.
Encarte do álbum 'Raimundo Fagner' de 1985. Acervo de Ricardo Bucci, Botões para Sempre
Encarte do álbum 'Fagner', da Abril Cultural, 1984. Acervo de Ricardo Bucci, Botões para Sempre
Segundo Fagner, "o 'velho Lua' tinha uma relação de pai para filho comigo"
Na MPB os artistas gravaram dois discos juntos

“As Velas do Mucuripe
Vão sair para pescar”...
Um magnífico compositor e intérprete. Uma voz única!

Fagner criou grupos musicais que eram a moda da época no histórico Colégio da Piedade, em Fortaleza. Venceu em 1968 o IV Festival de Música Popular do Ceará com a música “Nada Sou”, parceria sua com Marcus Francisco. Tornou-se popular no Estado em 1969, após comparecer em programas televisivos de auditório na TV Ceará e se juntou a outros compositores locais como Belchior, Jorge Mello, Rodger Rogério, Ednardo e Ricardo Bezerra.
O grupo ficou conhecido como 'O Pessoal do Ceará', um coletivo informal de migrantes rumo ao “Sul Maravilha” que mudaria a abordagem da música brasileira. No disco 'O Essencial de Fagner' é citado que o grupo colocou o 'tempero' pop/rock aos baiões, xotes e xaxados urbanizados pelo primor Luiz Gonzaga. No mesmo ano Fagner ganhou o badalado 'I Festival de Música Popular do Ceará - Aqui no Canto'.
Com o seu conterrâneo Belchior que nos deixou em abril de 2017

Ainda em 1969 mudou-se para Brasília. No ano seguinte estudou arquitetura na capital federal. Participou mais tarde do ‘Festival de Música Popular do Centro de Estudos Universitários de Brasília’ (CEUB) com a música “Mucuripe” e classificou-se em primeiro lugar. No mesmo festival, recebeu menção honrosa e prêmio de melhor intérprete com “Cavalo Ferro” (parceria com Ricardo Bezerra) e sexto lugar com a música “Manera FruFru, Manera” (também com Ricardo Bezerra). A partir de então, conseguiu despertar a atenção da imprensa do Sudeste.  Fagner, Belchior e Jorge Mello seguiram para o Rio de Janeiro, enquanto que os demais compositores cearenses como Rodger Rogério, Ednardo e Ricardo Bezerra foram para São Paulo. 
Fagner aportou na 'Cidade Maravilhosa' em 1971. Elis gravou no ano seguinte “Mucuripe”, que se tornou o primeiro sucesso do cearense como compositor e também como cantor, pois gravou a mesma canção meses depois no segundo compacto simples da série ‘Disco de Bolso’ (iniciativa de 'O Pasquim', que visava ao lançamento de compositores novatos ao lado de nomes já consagrados). No outro lado do compacto, Caetano Veloso interpretou “A Volta da Asa-Branca”, de Luiz Gonzaga.
O 'Disco de Bolso', do Pasquim
Foi logo mostrando a determinação de estar entre os grandes intérpretes da MPB ao conseguir a façanha de ser hospedado na casa de Elis e Ronaldo Bôscoli, até que organizasse sua vida.
 Fagner ladeado por Elis Regina e Ronaldo Bôscoli

No programa ‘Metrópolis’, TV Cultura, 2015, Fagner lembrou que o Rei Roberto Carlos sempre foi seu ídolo. Na oportunidade, Raimundo conta que a cantora Elis Regina tinha gostado de canções dele e o apresentara para o apresentador Flávio Cavalcanti (1923-1986). “Assim eu estava nos estúdios da TV Tupi para me apresentar porque a Elis mandara um recado para o Flávio Cavalcanti, me apresentando como um novo compositor que ela estava gravando”, relembra. “De repente eu ouvi um barulho lá fora e era o Roberto Carlos chegando. Aí ele falou para alguém que queria me conhecer. O Murilo, que era o divulgador da gravadora Philips, disse-me que o Rei queria me conhecer. Aí Roberto chegou e pediu: ‘Bicho, canta 'Mucuripe'!”, contou Fagner. “Eu comecei a cantar e ele começou a se emocionar. Aí eu vi que tinha chegado lá!”, concluiu o cantor de olhos fechados. 
 Com o Rei Roberto:
‘Bicho, canta 'Mucuripe'!” 
 
Ladrilhado pelas novas amizades cariocas, entre elas, Nara Leão, o seu talento logo surgiu no primeiro LP “Manera Frufru Manera”, lançado em 1973 pela Philips. Puxado pelo clássico “Último pau-de-arara” (Venâncio/Corumba), o disco reunia as várias faces de Fagner: a nordestina, a romântica e a moderna. Esse álbum também contou com um de seus maiores sucessos: “Canteiros”, música baseada no poema “Marcha” de Cecília Meireles.
No álbum ‘Fagner – Amigos e Canções’, de 1998, o próprio artista escreveu: “Cirino e Fagner, compacto simples RGE 1971, foi minha primeira gravação em disco. Mas foi com o LP ‘Manera Frufu Manera’, que iniciei minha carreira, lançado por Elis Regina, minha madrinha”.
LP 'Manera Frufru Manera', 1973

No momento seguinte esteve em Paris e fez a trilha sonora do filme "Joana, a Francesa" com Chico Buarque, de Carlos Diegues. Lá, teve aulas de violão flamenco e canto. O encarte belíssimo do álbum 'Fagner - História da Música Popular Brasileira - Grandes Compositores', produzido em 1984, pela Abril Cultural, relata que Fagner da França acabou indo até a Espanha, onde conheceu e foi aluno do guitarrista Pedro Soler e do cantor espanhol Pepe de la Matrona. “Ao longo desses anos tive muitos momentos de emoção ao gravar com diversos artistas que só enriqueceram minha discografia e me serviram de aprendizado valioso”. 
Capa da Revista Veja de 1975
Com Moraes Moreira, Zé Ramalho e Jackson do Pandeiro

Dentre seus inúmeros trabalhos, Botões para Sempre recorda com emoção o álbum Traduzir-se, produzido na Espanha, um grande marco em sua carreira. O trabalho foi lançado em toda a Europa e América Latina e vendeu mais de 250 mil exemplares em pouco tempo e recebeu disco de platina.
O disco 'Traduzir-se de 1981: na época, o mais vendido na Argentina
Com grandes parcerias, entre elas, Mercedes Sosa, na música 'Años'.
Desde o final dos anos 70, o cantor e compositor expande com maestria as fronteiras da MPB, com uma mistura de música romântica, o idioma pop e sons nordestinos. Musicou Florbela Espanca, uma poetisa portuguesa, como nos clássicos ‘Fanatismo’ e ‘Fumo’, com interpretações belíssimas. “Nesse sentido, os dois discos que gravei com Luiz Gonzaga e o álbum Traduzir-se representam momentos inesquecíveis em minha vida”.
Com o poeta cearense, o saudoso Patativa do Assaré

Em 1985 participou ativamente no projeto “Chega de Mágoa”, um álbum que teve a participação de 140 artistas e instrumentistas em prol das vítimas das enchentes no Nordeste. Lançou na antiga gravadora CBS, a partir de 1976, quando era diretor do selo Epic, artistas consagrados como Elba Ramalho, Zé Ramalho e Amelinha. Teve parcerias gerais: Chico Buarque, Ivan Lins, Alceu Valença, Dominguinhos, Ferreira Gullar, Zeca Baleiro (que juntos homenagearam numa canção o ex-jogador Canhoteiro), Gonzaguinha, Nonato Luiz, Abel Silva, Capinan, Ronaldo Bastos, Paco de Lucia... Na guitarra com o esplêndido Robertinho de Recife. O percussionista Naná Vasconcelos, além do instrumentista Manassés. Além, claro, do arquiteto cearense Fausto Nilo, seu parceiro mais frequente.
Um dos nomes mais representativos do Estado do Ceará, em 2011, Fagner foi considerado um dos 30 cearenses mais influentes do ano, de acordo com uma enquete realizada pela revista Fale!
foto: disco de Fagner, 1984, na Abril Cultural

“O futebol é uma tremenda paixão”
Com o outro Rei, dessa vez do futebol. "Joguei partidas com os jogadores do Cosmos de Pelé"
 Zico, Sócrates, Roberto Dinamite, Rivelino...grandes amizades
Com o comediante e humorista cearense Renato Aragão, Hamilton Melo, Marciano (ídolos do Fortaleza) e Zico. Anos 80
O compacto 'Batuquê de Praia' lançado com Zico no Carnaval de 1982
Com Zico e Ronaldo 'Fenômeno'

Assim define Raimundo Fagner. O cearense tinha outro gosto na infância e adolescência, além da música, que era o futebol. Fagner teve questão de abordar na entrevista concedida a Botões para Sempre que a paixão pelo futebol aumentou quando conheceu o ex-jogador Afonsinho, do Botafogo/RJ. “Eu o conheci na casa do poeta Capinan e ficamos amigos. Terminei depois morando na casa dele. Com isso me envolvi demais no mundo do futebol, pois ele residia num edifício, onde morava Geraldo Cleofas, que jogava com o Zico no Flamengo", lembra. Lá moravam também outros jogadores como Jairzinho e Marinho Chagas.
“Zico é meu ‘compadre’, uma amizade eterna”, atesta Fagner. Uma união afetiva com o maior ídolo da história do rubro-negro. Esse laço com Zico vem desde o começo da carreira do ex-jogador. Ele é padrinho de um dos filhos do craque, o Thiago. “O Geraldo foi o elo de aproximação com o Zico, pois íamos juntos ao Campo da Gávea do Flamengo, e com a morte do Geraldo, isso se intensificou ainda mais. Assim nasceu a parceria do cantor com o ‘Galinho’. "O Zico é meu irmão e vamos comemorar, em breve, 45 anos de amizade”.
O time de 1973 da Philips
Em pé: Cafuringa, Paulo Sérgio Valle, Ivan Lins, Armando Pitigliani, Fagner, Oberdan e Erlon Chaves. Agachados: Luiz Melodia, Jorge Ben, Rogério, Odair José e Paulinho Tapajós. Detalhe: o maestro Chaves morreu muito jovem, em 1974, aos 40 anos. Foto do álbum de Odair José 

Fagner lembra que jogou no Campo da Philips, no ‘Zincão’, e no time de mesmo nome. “Foi lá que fui escalado no ‘Time dos Artistas’ pelo Cafuringa, ponta-direita, que jogou no Fluminense, e ele era muito ligado à Philips e muitas ‘peladas’ foram feitas com o Jair Rodrigues, pai do Jairzinho, com o Simonal, e o maestro Erlon Chaves”.
O cantor esclarece que em um jogo no 'Zincão', ele teve uma atuação impecável em marcar o Cafuringa. Este era o capitão do 'Time dos Artistas'. Foi assim que ele começou a chamá-lo para os jogos, inclusive no Maracanã.
Nesta foto, segundo o cantor, marcando o Garrincha no Maracanã 

Trem da Alegria
O futebol nunca saiu da memória de Fagner. “O Afonsinho foi um grande jogador e o precursor da Lei do Passe Livre. Ele foi um agregador e fundou um time de nome ‘Trem da Alegria’, que misturava artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e muitas estrelas do futebol como Nei Conceição. Ele me colocou, inicialmente, na lateral, pois sempre reuni, graças a Deus, boas condições físicas. Os jogadores me procuravam durante os shows para bater uma ‘pelada’ e assim joguei praticamente em todos os cantos do país”, ressalva.
O nome Trem da Alegria é uma homenagem à Garrincha, a “alegria do povo”. O time misturava músicos, jogadores profissionais (muitas vezes sem clube), “atletas de fim de semana”, poetas e quem mais se aproximasse com disposição para compor o elenco do Trem.
Fagner virou figura carimbada em ‘peladas’ do Trem da Alegria. “Joguei com muitos craques e partidas incríveis no Rio e em São Paulo. O time era imbatível, contudo, acabou perdendo contra o time da USP, em São Paulo num evento”. A explicação da derrota? "O time estava totalmente bêbado (risos), pois passou a viagem toda bebendo", brinca.
“Trem da Alegria” virou filme em 2017 na produção do cineasta cearense Francis Vale. A obra retrata o time de futebol dos anos 70, que unia esporte, amizade e questionamento político à realidade brasileira. O filme teve entrevistas produzidas em Fortaleza, na Bahia e no Rio de Janeiro. Afonsinho, Paulinho da Viola, Raimundo Fagner, Capinan, Abel Silva, Serginho Redes, além de Paulinho Boca de Cantor e Gato Félix, dos Novos Baianos, foram outros entrevistados.

“O Carrasco do Politheama” 
Com Chico Buarque e o saudoso Marinho Chagas
 Com Chico Buarque, Zé Ramalho e João do Vale
Estádio do Maracanã/RJ. O Mestre Fagner nos contou que esse jogo data de 1973 ou 1974.
Em pé: Paulinho Tapajós, Zeca do Trombone, Wilson Simonal, Gato Félix, Raimundo Fagner e Agnaldo Timóteo. Agachados: Miltinho, Betinho, Ruy, Chico Buarque e Tobias
Raimundo Fagner foi ‘O carrasco do Politheama’ (time de Chico Buarque), gaba-se. “No campo do Chico eu joguei muitos anos. O nosso time era o pior de todos, pelo simples motivo que a gente viajava muito e terminei sendo artilheiro em muitas ocasiões. "Fomos campeões dois anos seguidos, mas é que só sai a versão dele" (risos). Fagner recorda que era filiado a outro time, o Vento Forte*, (para quem é fã do cantor, quem não se lembra da música* de mesmo nome no álbum de 1980?) que o Cacá Diegues chamava de 'Brisa Ligeira'. "Fiquei conhecido como o ‘carrasco’ e quando jogava contra o time do poeta crescia na ‘parada’ e a motivação era enorme”.
Depois no campo do Zico, Fagner teve a característica de colocar a bola para os craques fazerem gols como o atacante Cláudio Adão e outros. Com gente de tanta classe sempre por perto, o futebol de Fagner evoluiu. “Nas peladas do Zico, se ele mete 10 bolas, você tem que balançar a rede pelo menos quatro vezes, se não a turma cobra. Assim fui pegando marra”, conta o cearense.
Rivelino, Falcão, Reinaldo, Júnior, Cerezo, Sócrates, (o eterno Doutor) e Pelé foram outras grandes amizades no meio do futebol. “Assisti a despedida do Rei junto com o Afonsinho e assim nasceu outra amizade, desta vez, com a maior lenda do futebol”, lembra.
Uma das figuras mais conhecidas do futebol brasileiro, Sócrates, o ‘Magrão’, planejava gravar um CD com músicas sobre a Copa do Mundo e fazer uma turnê de shows durante o Mundial de 2014. O plano de Sócrates foi revelado por Fagner em uma entrevista concedida para o Portal da Copa 2014. No vídeo da entrevista, o cantor disse, inclusive, que o álbum sobre a Copa poderia até ser duplo, contando, no máximo, com 14 músicas.
Doutor Sócrates com a camisa do Fortaleza: aqui ele relata a casa de sua família no Ceará
  
O time ‘Beleza’ no Ceará
“Meu time aqui no Ceará era Beleza”, disse Fagner em um de seus vários áudios que gravou exclusivamente a Botões para Sempre, quando estava em Fortaleza e em Beberibe, no litoral cearense. A ideia de formar essa equipe em terras ‘alencarinas’ surgiu no começo de 1980, quando o cantor e amigos começaram a promover ‘peladas’ nos fins de ano. Lucinho, grande ídolo da história do Fortaleza, era meio-armador do time. Contava também com jogadores estrelados do Ceará como Facó e Agapito.
Na reportagem da Revista Placar do ano de 1983, o ‘Beleza’ estava invicto desde sua fundação, com mais de 70 partidas consecutivas sem derrota! E teve a proeza de jogar e ganhar do Corinthians de Sócrates e Cia.
O time 'Beleza' posado no começo dos anos 80
Arte belíssima de Moisés Correia do time 'Beleza' para adesivação nos botões
Em pé: Agapito Jorge, Eliseu Batista, Luís Comandante, Saraiva, Roberto Papelin, Marciano e Ponce de Leon. Agachados: Luiz Pouchain, Raimundo Fagner com Léo, Lucinho, Zé Carlos Mororó, Vicente Júnior e Reninho Figueiredo. Foto do acervo de Eliseu Batista Filho
No começo dos anos 80, o time 'Beleza', fazia bonito por onde passava, nas 'peladas' de futebol.

Castelão e o ‘Festival de Bola’, 1981
O “Gigante da Boa Vista’, o estádio Castelão, em Fortaleza, como é conhecido, foi palco de vários jogos da Copa de 2014, inclusive da seleção brasileira, e recebeu em dezembro de 1981, com portões abertos, a partida que marcou o disco de platina de Fagner daquele ano. Contou com nada menos que Zico, Sócrates, Éder, Cerezo, Falcão, Roberto Dinamite, Rivelino, Jairzinho, Marinho Chagas, Cláudio Adão, Paulo Sérgio entre outros craques.
Botões para Sempre divulga algumas fotos desse jogo do encarte do álbum ‘Raimundo Fagner de 1982’ e um texto escrito pelo Doutor Sócrates. Foram formadas duas equipes para esse ‘show’ capitaneado pelo cantor. A notícia pesquisada no jornal Diário de Pernambuco trazia a seguinte nota no final do texto: “Fagner mantém um excelente relacionamento, não só entre a classe artística como também entre os jogadores de futebol”. 
A festa de Fagner no estádio Castelão, em Fortaleza. Botões para Sempre traz um artigo escrito pelo saudoso Doutor Sócrates sobre a partida. Para uma melhor visualização, salve e abra no seu editor de fotos.

Recordações da Copa de 1982
Juninho, Dr. Sócrates, Fagner e Paulo Sérgio na Copa da Espanha 1982
Fagner ladeado pelos saudosos Doutor Sócrates e o técnico Telê Santana: treino da seleção brasileira no amistoso contra o Uruguai no estádio Castelão/CE, em 1980.
Encarte do álbum Raimundo Fagner de 1982. Acervo de Ricardo Bucci, Botões para Sempre
Camisa de Fagner do seu acervo de 1982 da seleção brasileira exposta no Museu do estádio Castelão, em Fortaleza
A seleção que encantou todos os brasileiros tinha um convocado a mais em 1982. Ele não podia disputar o Mundial, mas esteve em todos os treinos. O cantor Fagner foi uma espécie de torcedor de luxo, como poucos na história da seleção ‘canarinha’. Graças à amizade com dois dos líderes daquele time: Zico e Sócrates. “Eu era bem conhecido na Espanha, pois estava lançando um disco (em espanhol). Ajudava a descontrair os jogadores nas horas de folga”, relembra.
No vídeo gravado para o portal Copa 2014, o cantor salienta que ficou hospedado em Sevilha na primeira fase no mesmo hotel que ficaram os jogadores. “Estava totalmente integrado no projeto de 1982. Cheguei a entrar na concentração, pois só era permitido militares. O Telê Santana tinha uma generosidade danada. Eu acreditava piamente que o Brasil ia ser tetracampeão”.
Brasil e Itália, em 1982, o jogo que me mais marcou sua vida. Porém, acabou numa das suas maiores tristezas relacionadas com o futebol. “Eu nasci em 1949, então, imagino a decepção para quem viu a grande seleção de 1950 perder a final no Maracanã contra o Uruguai e depois sofreu de novo em 1982”.
Fagner recorda também que sentiu algo estranho quando a seleção ‘canarinha’ aportou no gramado no fatídico jogo contra a Itália que ficou conhecido como “A tragédia de Sarriá”. “O semblante dos atletas não era o mesmo de outras partidas”, rememora.

Atravessando fronteiras 

Fagner lembra que toda essa paixão pela bola percorreu não apenas gramados brasileiros, mas também a Europa e os EUA. “Joguei com os jogadores da Udinese, o time italiano de Zico". E ressalta: "Até com os craques do Kashima Antlers do Japão", clube que o 'Galinho' defendeu.
Já nos Estados Unidos jogou com Pelé, Carlos Alberto, George Best e Romerito no badalado New York Cosmos. "Conheci na época também o saudoso Professor Júlio Mazzei, que foi preparador físico de Pelé", conta com saudades. 

Uma de suas maiores emoções
Fagner contou para o portal O Globo, durante entrevista para o Mundial de 2014, que a maior emoção que ele teve jogando partidas de futebol foi num jogo da Cruz Vermelha, beneficente, no estádio Independência, em Belo Horizonte, em 1981. "Um dos times foi armado pelo Reinaldo e era praticamente o time do Galo da época. Eu estava no time do Doutor Sócrates. Na entrada falei para ele: 'Ô, Magro, olha o time dos caras, vamos tomar um 'pau''. Ele respondeu: 'Ô, Magro, fique lá na frente, que eu vou te botar na cara do gol'". Resultado? Fagner acabou fazendo dois gols. "No segundo gol, caí na trave, todo mundo em cima, o povo pulando, com o estádio lotado", conta emocionado.
Aquilo marcou demais para o cantor. "Tiveram de me tirar cinco minutos antes porque não havia segurança. Foi a alegria mais louca que senti na vida, jogando futebol". O Mestre Telê Santana estava presente no estádio, quando faltava apenas um ano para a Copa da Espanha. Na ocasião, um repórter brincou com ele: "E aí, Telê, vai levar o Fagner pra Copa?". Ele respondeu na hora: "Se passar no antidoping, eu levo", brincou.
Raimundo Fagner contou a Botões para Sempre que o futebol proporciona o verdadeiro espírito esportivo. “É uma válvula de escape. Gastamos muita energia nas noites em nossos shows”, avalia.
 
Tricolor fanático: a experiência no ‘Leão do Pici’
Postcard lançado pela antiga gravadora CBS em 1980´s
Com o narrador esportivo da Rede Globo de Televisão, Galvão Bueno
Com um dos elencos do Fluminense/RJ

Tricolor de coração, Fagner não esconde suas duas grandes paixões: o Fluminense, no Rio, e o Fortaleza Esporte Clube, no Ceará. Ele teve a oportunidade de jogar partidas no ‘Tricolor de Aço’, o seu querido ‘Leão’. Na primeira vez, em 1982, o cantor nem conseguiu dormir direito. Chegou atrasado para a peleja e foi um sofrimento. “Nessa época jogava aqui o baiano Zé Eduardo que fez uma história fantástica no clube. Fiquei me escondendo dele o jogo todo. Ele pegava na bola e olhava pra mim. Eu literalmente dava as costas pra ele”, brinca.
Já em janeiro de 2002, com o acesso do ‘Leão’ para a primeira divisão, Fagner participou por 15 minutos de uma partida amistosa entre Fortaleza e Maranguape, no estádio Presidente Vargas (PV). O Fortaleza venceu por 3x0, mas o cantor não marcou gol. “O técnico do Maranguape falou para alguém de seu time me marcar bem, pois eu era perigoso, na concepção dele. Naquela vez ganhei uma moralzinha” (risos).
Partidas no time de seu coração, o Fortaleza Esporte Clube
Fagner atuando com a camisa do Leão contra o Maranguape
Com o ex-jogador Jorge Veras e o humorista cearense Adamastor Pitaco. Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza/CE numa partida beneficente.
Com o humorista cearense Tom Cavalcante
No lançamento do livro do ex-jogador e comentarista da Rede Globo de Televisão, Casagrande

Saudades dos seus ‘guerreiros em miniatura’
Time 'Beleza' de 1983, da coleção de Botões para Sempre, e que foi dado de presente ao amigo Fagner
NÓS QUE AGRADECEMOS MESTRE!
Em Fortaleza, Fagner jogava muito mais botão do que em Orós, pois em sua ‘pacata’ cidade tinha outras coisas da natureza que ele curtia muito, além, claro, do açude. “Eu tive um grande time de botão em Fortaleza, juntamente com a parceria de um expert no assunto, de nome Mauri. Cheguei a jogar com vários garotos, o Tarcísio, e com toda a molecada nos intervalos no Colégio Salesiano no bairro da Piedade”. O cantor recorda que teve diversos times e muitas peças. Os melhores times eram os botões feitos de osso da antiga ‘Paulo Caminha’. “Recordo de botões feitos com ‘capinhas’ de relógio e o famoso botão de casca de coco. Somente depois que vieram esses botões mais padronizados, daí eu já não gostei muito. Tenho o pensamento que botão ‘bom’ mesmo era aquele feito antigamente, pois tinha qualidade”.
Fagner lembra da bolinha que era a tampa da pasta de dente da marca ‘Colgate’. O goleiro era uma caixa de fósforos bem reforçada, com o escudo do clube. “Quando surgiu a fase dos botões industrializados, que eu peguei no Rio, jogando com o poeta Chico, virei o ‘Ministro do Esporte dos Botões’, pois jogávamos muito ainda, mas sem aquele prazer de tempos antigos, pois não eram mais aqueles botões de minha infância, que eu deixei aqui e depois, infelizmente, sumiram”, relata Fagner.
O cantor falou com emoção que carregava os botões naquelas latinhas antigas de talco ‘Palmolive’. “Passávamos cera e tínhamos o maior cuidado, o maior carinho possível. Até hoje lamento muito não ter mais esses objetos”. Todavia, Fagner imagina que esteja com alguém.
 
Fagner! E a Copa de 2018?
Foto com o craque Neymar Jr. 
Perguntado sobre a Copa na Rússia, Fagner comenta que a seleção brasileira não é a favorita ‘disparada’, mas ele está gostando muito do trabalho do ‘professor’ Tite. “Realmente, um ótimo projeto”. E, segundo ele, as ‘seleções de sempre’ que, ao lado do Brasil, podem levantar o caneco: “Alemanha, Espanha e França”. 
Com o inesquecível Senna

Fontes de pesquisa: Acervo particular de Ricardo Bucci da discografia quase completa de Raimundo Fagner, com informações e fotos. Acervo pessoal de fotos de Raimundo Fagner do Site Instagram oficial do cantor, Revista Placar nº576 (1981), Revista Placar nº669 (1983), Revista Super Leão, Jornal Diário de Pernambuco 1980 e 1981, Programa Ensaio 1991 (TV Cultura), Programa Cartão Verde Especial Copa 82, 2012 (TV Cultura), Programa Metrópolis, 2015, da TV Cultura, programa de vídeo para o Portal da Copa 2014, Portal O Globo/Esportes Copa de 2014, Site Verminosos do Futebol,  e entrevista exclusiva sobre Futebol Retrô e Futebol de Botão a Botões para Sempre no outono de abril de 2018. 

Nota de agradecimento especial


A Fundação Social Raimundo Fagner que atende mais de 370 crianças em Fortaleza/CE e Orós/CE



Querido Fagner, muito obrigado por nos proporcionar este momento único e especial. Saiba que a matéria foi feita com muito carinho por duas pessoas, que, na verdade, curtem a sua carreira há muito tempo. Somos fãs de ‘carteirinha’ de seu belo trabalho na MPB. Quando você gravou os áudios exclusivos para Botões para Sempre, percebemos o quanto você gosta de nossa temática. Você nos concedeu uma verdadeira aula de história e mostrou exemplo de humildade quando disse: “O que você achou desse papo que eu fiz? Bom dia e um abraço meu irmão!”. Isso tudo nos contagiou.

Fagner você é de uma simplicidade extraordinária. Tivemos a honra de entrevistá-lo. Você é de uma inteligência rara. E tem um coração maravilhoso com esse exímio trabalho na Fundação Social Raimundo Fagner. Seguramente esta matéria será SEMPRE uma das mais marcantes de Botões para Sempre. E fique à vontade de acrescentar ou lembrar de algo interessante, que estaremos orgulhosamente editando no texto as suas belas lembranças e recordações.

Podemos dizer que “Você é o cara!”.

Um grande abraço fraterno e muito obrigado, de coração.

Ricardo Bucci, jornalista, editor e criador de Botões para Sempre e José Oliveira, colaborador

Vídeo de um dos gols mais bonitos de Fagner